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domingo, 18 de maio de 2014

Mulata Exportação, de Elisa Lucinda.


“Mas que nega linda
E de olho verde ainda
Olho de veneno e açúcar!
Vem nega, vem ser minha desculpa
Vem que aqui dentro ainda te cabe
Vem ser meu álibi, minha bela conduta
Vem, nega exportação, vem meu pão de açúcar!
(Monto casa procê mas ninguém pode saber, entendeu meu dendê?)
Minha tonteira minha história contundida
Minha memória confundida, meu futebol, entendeu meu gelol?
Rebola bem meu bem-querer, sou seu improviso, seu karaoquê;
Vem nega, sem eu ter que fazer nada. Vem sem ter que me mexer
Em mim tu esqueces tarefas, favelas, senzalas, nada mais vai doer.
Sinto cheiro docê, meu maculelê, vem nega, me ama, me colore
Vem ser meu folclore, vem ser minha tese sobre nego malê.
Vem, nega, vem me arrasar, depois te levo pra gente sambar.”
Imaginem: Ouvi tudo isso sem calma e sem dor.
Já preso esse ex-feitor, eu disse: “Seu delegado…”
E o delegado piscou.
Falei com o juiz, o juiz se insinuou e decretou pequena pena
com cela especial por ser esse branco intelectual…
Eu disse: “Seu Juiz, não adianta! Opressão, Barbaridade, Genocídio
nada disso se cura trepando com uma escura!”
Ó minha máxima lei, deixai de asneira
Não vai ser um branco mal resolvido
que vai libertar uma negra:
Esse branco ardido está fadado
porque não é com lábia de pseudo-oprimido
que vai aliviar seu passado.
Olha aqui meu senhor:
Eu me lembro da senzala
e tu te lembras da Casa-Grande
e vamos juntos escrever sinceramente outra história
Digo, repito e não minto:
Vamos passar essa verdade a limpo
porque não é dançando samba
que eu te redimo ou te acredito:
Vê se te afasta, não invista, não insista!
Meu nojo!
Meu engodo cultural!
Minha lavagem de lata!
Porque deixar de ser racista, meu amor,
não é comer uma mulata!
(Da série “Brasil, meu espartilho”)

sábado, 12 de janeiro de 2013

coisa em si
não existe



tudo tende
pende
depende



o mar que molha
a ilha molha
o continente



o ar que se
respira traz
o que recende



coisa em si
não existe



tudo é rente
tangente
inerente



pedra
assemelha
semente



sol nascente:
sol poente



coisa em si
não existe



mesmo que
aparente



coisa em si
coisa só
parida do seu
próprio pó



sem sombra
sobre
a parede



sem mar
gem
ou afluente



não existe
coisa assim



isenta
sem ambiente



não há coração
sem mente



paraíso
sem serpente



coisa em si
inexistente



só existe
o que se
sente.

(Arnaldo Antunes)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Duchampismo

[Calvin, Bill Watterson]

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Em face dos últimos acontecimentos

Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
Que o nosso avô português?

Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros,
sejamos tudo que quiserem,
sobretudo pornográficos.

A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).

Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
Fosse a última resolução.
Não compreendem, coitados
que o melhor é ser pornográfico.

Propõe isso a teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?

(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Neologismos

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo
Teadoro, Teodora.

(Manoel Bandeira)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Férias

"OSCILO,
ENTRE O ÓCIO
E O COCHILO"
(Autor desconhecido - adesivo colado na geladeira do Realejo Bar)

sábado, 1 de janeiro de 2011

Arnaldo


["Gente", Arnaldo Antunes. 2002]

terça-feira, 1 de junho de 2010

sábado, 27 de março de 2010

"O Rock'n'Roll das coisas" - Vitor Paiva

Existe um Rock'n'Roll em todas as coisas. Uma sensação sem nome, que pulsa entre todas elas. Tiroteio, Revolução Russa, Carla Perez, automóvel, lixo, Green Peace, preguiça, assassinato, fá sustenido menor, uma pelada num campo de várzea e uma guimba de cigarro. Não dá pra explicar. Ou você simplesmente entende, ou pode parar a coluna por aqui. O resto dela é artifício.

Na verdade, todo mundo sabe desse Rock'n'Roll, mesmo sem saber que sabe. É só abrir os olhos. Abrace um palavrão. Dance com um avião desgovernado. Ou você consegue realmente apontar quem é vilão e quem é herói? Você acha mesmo que alguém tem o direito de dizer pro Lobo Mau não comer a Chapeuzinho? A parte mais difícil é essa. É que cada Israel é a sua própria Palestina. E vice-versa. Isso é o Rock'n'Roll das coisas.

Quem não consegue perceber a semelhança óbvia (porém misteriosa) entre Kurt Cobain e Drummond? Ou João Gilberto? Entre Bob Dylan e Tom Zé? Augusto dos Anjos e Mick Jagger? Chet Baker e Paulo Leminski? Pina Bausch e Romário? Nietzsche e Garrincha? Entre Hitler e qualquer um de nós? São pessoas que enfiaram o dedo na ferida. Sacudiram. Ás vezes, o que vale é a estranheza.

E não queiram o Rock com estilo musical específico. Afinal, quer coisa mais Rock'n'Roll do que Frank Sinatra cantando My Way? Ou Astor Piazzola. Quer coisa mais Rock'n'Roll do que Cartola? Do que Águas de Março? E Gandhi? Gandhi é muito mais Rock'n'Roll do que Janis Joplin e Jim Morrison juntos.

Está pelos cabelos e em todas as cidades. O Cristo Redentor é Elvis cantando Jailhouse Rock. A Avenida Paulista, A day in the Life, dos Beatles. A Torre Eiffel, em Paris, é All apologies, do NIrvana, e a basílica de São Pedro, em Roma, Bohemian Rapsody, do Queen.

Neste exato instante alguém teve falência múltipla dos órgãos, e outra pessoa achou 10 r$ no bolso. Alguém se atira de um prédio e se arrepende e no mesmo segundo, outro a 3.000 quilômetros dali decide ter um bebê. O Rock'n'Roll que existe em todas as coisas mora no tempo e soa muito além de nomes ou explicações. Quem quiser, que queira.
["O Rock'n'Roll das Coisas", Vitor Paiva em sua coluna na Revista MTV #18, em 2002]

Adoro esse texto, tenho ele há anos, acho fantástico.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Absurdo


(Esse não é meu, encontrado num blog)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

.
"O
........................AB
SURDO
NÃO
..........................H
OUVE."
(Walter Franco)




"COR(EM(COME(CA(MINHA)BEÇA)ÇA)MEU)AÇÃO
CABE(EM(NÃO(COR(MEU)AÇÃO)CABE)MINHA)ÇA"
(Despoesia - Augusto de Campos)




"Se alguém causa inda pena a tua chaga,
apedreja essa mão vil que te afaga,
escarra nessa boca que te beija."
(Versos Intimos - Augusto dos Anjos)